Arcozelo das Maias é uma freguesia do concelho de Oliveira de Frades, de cuja sede dista cerca de treze quilómetros. Estende-se por uma área de 2092,2 hectares, que compreende os lugares de Arcozelo das Maias (sede), Borralhais, Bouça, Cadavais, Corga da Carvalha, Chão do Vintém, Faleiro, Feitalinho, Fornelo, Ladário, Lameiradas, Lavagueira, Lavandeira, Mourão, Porcelhe, Portocarro, Póvoa, Quintela, Quinta de Virela, Santa Cruz, Soutinho, Vila Chã e Virela. É confinada pelas freguesias de Ribeiradio, Reigoso e Pinheiro de Lafões, tendo como fronteira de divisão o Rio Vouga, assim como pelas freguesias de São João da Serra e Couto de Esteves (Sever do Vouga, Aveiro).

A freguesia é banhada, a norte, pelo Rio Vouga, ao centro pelo Rio Mau, também conhecido pelo Rio Gaia (que nasce na vertente norte da Serra do Ladário e vai desaguar no Rio Vouga), e a Este pelo pequeno Rios Pias. A existência destes três rios, desde cedo contribuiu para o desenvolvimento económico da freguesia e terá sido também um factor determinante à fixação dos primeiros homens nesta região, que, ao que tudo indica, ocorreu em épocas bastante remotas. A antiguidade desse povoamento é comprovada pelos vestígios na Serra do Ladário, Soutinho, Sepultura Antropomórfica (Quintela), Castro da Coroa, Rastos dos Mouros e ainda um nicho ou alminhas (não datadas) no adro da igreja em Arcozelo das Maias.

Há dados relevantes de 1527, a “ffregisya darcuzello” já constava dos cadastros da população do reino, apresentando apenas oito lugares da sua constituição.

Posteriormente, é referenciada a nível documental em 1862, sendo mencionada como freguesia de São Pedro de “Arcuzello”, tendo como pessoa ilustre Fr. Pedro das Chagas, Dr. pela Universidade de Coimbra.

Nesta época, Arcozelo era apreciada, não só pelas suas águas excelentes (a nível de tratamentos de doenças de bexiga), mas também pelo azeite, vinho e frutas produzidas na freguesia. Fazia-se ainda referência aos moinhos existentes na freguesia, que eram muitos, pois deles dependia a subsistência de muitas famílias.

O trânsito realizava-se então pela Ponte de Coifas, tendo sido substituído pela Estrada Nacional 16, no qual ainda há uma placa de identificação, datada de 1930, colocada aquando da primeira campanha de identificação toponímica em Estradas Nacionais, realizada pelo Automóvel Clube de Portugal.


A lenda de Quintela

No local hoje conhecido por Coroa, no lugar de Arcozelo, vivia uma família que tinha uma filha, trabalhadeira, que namorava um rapaz trabalhador do lugar de Antelas. Ele, para facilitar o namoro, veio fazer uma pequena casa em Quintela, no sítio que actualmente se chama o “Cabeço da Nogueira”.

Os pais da rapariga, não concordando com o namoro, proibíram-na de falar com o apaixonado. Mas, como o amor ultrapassa todas as barreiras, a rapariga numa noite fugiu de casa dos pais e foi viver para a casa do namorado.

Os dois dedicaram-se afincadamente ao trabalho, aproveitando os melhores lugares de Quintela, e rapidamente conseguiram ter a melhor quinta da freguesia. Então, quando os seus parentes, amigos e conhecidos os queriam visitar diziam: “Vamos à quinta dela”. Daí ter surgido o nome de Quintela.

 

A lenda da "Língua do Rato"

Mantém-se na memória dos habitantes de Arcozelo das Maias um episódio ocorrido no lugar de Quintela, a 26 de Agosto de 1752. Neste dia, o sr. Manuel Fernandes Rato, desse mesmo lugar, injuriou em voz alta o conterrâneo padre Domingues Fernandes, estudante terceirista da Universidade de Coimbra, que em 16 de Agosto de 1754 foi criado e feito familiar do Santo Ofício da Inquisição, chamando-lhe lambe-pratos do vigário, cabrão, patife e mais outros insultos.

Movido por esta atitude infame, o padre Domingues levantou processo-crime contra o sr. Manuel Fernandes Rato, que foi julgado em 14 de Setembro de 1753 na comarca de Vouzela e condenado a pagar ao dito padre a quantia de 25.000 réis e dois anos de degredo em África e custas

O dito Rato apelou para a Relação do Porto, a qual deu a seguinte sentença: “acordei que, sem embargo dos embargos que não recebo, se cumpra o acórdão embargado, passe a sentença pela chancelaria e se entregue à parte com a declaração, porém, de que, aceitados os autos e haver o Réu pago a condenação das despesas, o alívio de um ano de degredo e lhe comuto o outro em pregão de seis mil e quinhentos réis e pague o mesmo Réu as custas de seus embargos.
Porto, 15 de Junho de 1754
Jácome Reis Pereira”

O padre Domingues recebeu aquela quantia e com ela mandou fazer o campanário da capela de Santo Tirso de Quintela, tendo comprado a respectiva sineta. Quando tocavam a sineta do dito campanário, os habitantes de Quintela diziam que estava a falar a língua do Rato.

 

A lenda do Santo de Tirso

Na era de Cristo, entre 410 e 416 entraram na Península os Vândalos, Suevos e Alanos. A estes pertenceu por divisão a Lusitânia e Cartagena.

O rei dos Alanos tornou-se o mais poderoso e iniciou uma guerra com o dos Suevos, arrasando as principais cidades e fundando outras nas margens do Mondego. Obrigou os bispos e sacerdotes aos maiores trabalhos, profanou as igrejas e destruiu todas as alfaias e santos.

Por esta altura, muitos bispos fugiram para não serem obrigados aos trabalhos forçados. Entre estes estava o bispo de Águeda (Potâmio), que com um criado veio para o lugar do Ladário e trouxe consigo o Santo Tirso. Ali construiu uma pequena ermida junto a um cabeço, o qual ainda hoje tem o nome do Cabeço do Santo.

Diz-se que os habitantes de Quintela foram buscar o Santo ao Ladário para uma capela que construíram em Quintela. Não há lembrança de quando foi feita, apenas se sabe que o campanário foi feito em 1754 e se chamava “a língua do Rato”. Mas os habitantes do Ladário não levaram a bem que lhe tirassem o Santo e de noite vieram buscá-lo a Quintela e levaram-no para a sua ermida.

Novamente, e por mais uma vez, os moradores de Quintela foram buscar o Santo ao Ladário, mas sempre que o iam buscar rebentava uma trovoada e chuva que dificilmente se podia passar nas corgas. Por isso, ainda hoje se diz “se quereis chuva na terra, trazei o Santo para Quintela”.

E nestes tempos quando pedem “ad pluviam” levam o Santo a Arcozelo e trazem-no em procissão para a sua capela em Quintela.