Outra prática bem comum e conhecida do povo de Arcozelo das Maias é a medicina popular. No passado, nas aldeias mais inacessíveis, muito dificilmente existia um médico e, por esse motivo, o povo fazia uso dos seus conhecimentos empíricos para resolver os seus problemas de saúde. Assim acontecia nesta freguesia e ainda hoje os habitantes transmitem esses preciosos saberes às gerações vindouras. Apresentam-se, em seguida, alguns exemplos.
Para talhar o augado
As crianças eram consideradas augadas quando, por vergonha ou mesmo por educação, viam um doce, uma fruta ou outra guloseima que lhes apetecia e que não comiam nem provavam, ficando, por isso, cismadas, tristes e sem apetite. Nestas situações, o povo dizia que tinha de se lhes atalhar o augado. Para tal, procedia-se da seguinte forma: quando se fazia o pão com farinha de milho e centeio, tirava-se um bocado da massa que se espalmava para fazer uma bola grande e com o dedo apontador, faziam-se sete buracos que eram enchidos com azeite do bom para depois ir ao forno de cozer o pão. Esta bola era então dada a comer à criança, que se devia esconder atrás de uma porta. A porção que restasse dava-se a um cão, ao mesmo tempo que em frente da porta do forno se dizia: “Em louvor de São Bento, vai o augado pelo forno dentro”.
Esta prática podia repetir-se até que a criança ganhasse novamente o apetite de comer.
Para a dor ciática
A dor ciática é uma doença reumática bastante comum, sobretudo nos idosos. Para a atenuar, o povo conhece diversos remédios caseiros, como a banha da cobra, cujo modo de preparação varia de região para região.
Em Arcozelo das Maias, essa preparação consiste na captura de uma cobra, que é depois colocada dentro de um frasco de boca larga, cheio de aguardente bagaceira. Ali permanece durante seis meses, período após o qual a banha da cobra já poderá ser utilizada para tratar a ciática e outros reumatismos. Aplica-se ao deitar, na zona dorida do corpo, fricciona-se e em seguida agasalha-se muito bem, de preferência com um cobertor de lã.
Para a icterícia
Colhe-se uma erva hepática, pisa-se e do sumo que dela se extrai tira-se uma colher e deita-se num ovo ao qual se tira a clara e põe-se a aquecer ao lume. Quando estiver morno dá-se a beber ao doente, de manhã e à noite, durante nove dias continuados. Diz-se que, mesmo antes do remédio acabar, a pessoa já estará de perfeita saúde.
Para a dor de cabeça
Para curar a dor de cabeça causada pela febre, colocavam-se sobre a testa panos molhados com água rosada, ou sumo de tanchagem, alfavaca de cobra, alface, beldroegas e vinagre; ou batiam-se duas claras de ovo com água rosada e fazia-se uma estopada que ocupasse toda a testa.
Também era usual lavar a cabeça com água tépida em que se tivessem cozido folhas de vides, salva, golfão (nenúfar) e rosas. Na água que ficasse, lavavam-se as pernas e os pés.
Para as cataratas
As cataratas ou névoas de olhos curavam-se tomando um ovo, ou mais, frescos daquele dia e cozidos no borralho até que ficassem duros. Quando estivesse como se desejava, partiam-se em quartos, tiravam-se as gemas e enchiam-se os lugares delas de outro tanto de açúcar em pedra, o mais claro possível. Dispunha-se tudo num pano limpo, que se espremia muito até que dele saísse uma água ou licor. Era precisamente uma pinga deste líquido que se deitava no olho enfermo para o curar.
Para o mesmo problema podia também ser usada a água que se fazia do vitríolo (sulfato de zinco hidratado ou carraposa branca) e açúcar em pedra, água rosada e claras de ovos duros. Coava-se tudo por um pano, tal como acima se descreveu, e colocava-se o resultado no olho, de manhã e à tarde.
Podia fazer-se ainda um remédio com água de tutia preparada (óxido de zinco impuro). Assim, a uma taça de tutia juntava-se meia onça de almécega (boa resina extraída de almecegueira lentisco) e derretia-se tudo em água rosada e vinho branco uma taça de cada coisa. No final, colocava-se tudo numa garrafa de vidro, que depois se punha ao sol durante três semanas, com o cuidado de a tirar todas as vezes que o sol faltasse.
Para a dor de olhos
Para curar a dor dos olhos cozia-se macela, coroa de rei e funcho em grão, em água e vinho. Depois, na altura de usar o remédio, embebia-se um pano de linho em quatro dobras com dito cozimento e colocava-se em cima dos olhos.
Para o mesmo problema usava-se também o leite de mulher batido com uma clara de ovo, colocando-se o preparado em cima dos olhos.
Para o sangue dos olhos
O sangue dos olhos era tirado fazendo um preparado com clara de ovo batida e água rosada ou tanchagem. Colocava-se nele um pano de linho, que depois se aplicava sobre os olhos.
Para as lombrigas
Para matar as lombrigas que costumavam atormentar as crianças, fazia-se um sumo de hortelã, de beldroegas ou de arruda para elas beberem, e aplicava-se também em cima do umbigo um emplastro de losna (absíntio) abrótea e fel de boi.
Para fazer vir a purgação
Quando uma mulher queria que lhe viesse a regra, bebia cada manhã, duas onças de água de artemísia ou do cozimento de grama, caroços de nêsperas e raízes de aipo, cinamomo (casca de caneleira), açafrão, raízes de nabos redondos e sobre eles tanta mirra como um grão de fava.
Para o mesmo efeito, era também usado um banho de água em que se tivesse fervido artemísias, malvas, malvaísco, coroa de rei, macela e outras ervas semelhantes. Quando a mulher estivesse no banho, devia esfregar as nádegas e as coxas, apertando por baixo com um saquinho cheio de artemísia, erva andorinha, cerefólio (cerefolho) aipo, betónica (cestro), caroços de nêsperas e outras coisas similares.
Para a madre fora de seu lugar
Para a madre (placenta) caída e fora do seu lugar, levantavam-se os braços à enferma e atavam-nos muito apertadamente. Colocavam-se depois ventosas nos peitos e faziam-se perfumes de coisas odoríferas por cima, e por baixo coisas de mau cheiro.
Convém fazer-lhe beber pós de ponta de veado e de folhas secas de louro com vinho branco forte. Também é muito bom um emplastro de alhos pisados destemperados com água de urtigas posto sobre a barriga, para que torne a madre para o seu lugar.
Para curar os cravos
Os cravos são verrugas que, segundo a tradição, são tidas como consequência de apontar com os dedos as estrelas do céu, sendo muitas as curas que lhe estão associadas. As mais conhecidas são a aplicação de água de cravos, leite de figos ou cal hidráulica (por vezes com bons resultados) e a prática de bruxarias.
Outra, pouco divulgada, consiste na captura de uma lesma, após o que se esfrega a verruga com a baba que lhe protege o corpo. Posto isto, será a lesma espetada viva numa estaca de pau bem afiada e colocada ao sol, até que fique completamente seca. Quando tal acontecer, também estarão os cravos desaparecidos.
Para as bichas
As bichas são parasitas intestinais, cuja causa é muitas vezes atribuída ao facto de algumas crianças dormirem com as pálpebras semi cerradas. Para as desparasitar, era prática corrente nas aldeias, antes de surgirem as lombrigas, dar a beber às crianças, ao deitar, durante uma semana, um cálice de vinagre de vinho tinto. Acreditava-se que aqueles parasitas apenas gostavam de doçuras!
Para o sarampo
O sarampo, tal como a rubeola e a varicela, é bastante contagioso e é tido como um mal que sete vezes vem ao corpo. A debilidade física consequente da febre que a doença provoca faz crer ao povo que a criança afectada por esta doença deve ser isolada, para o não pegar às outras. Para o seu tratamento deve-se enrolar o doente com um cobertor vermelho, e dizer com frequência:
“- Sarampo, sarampão e sarampelo, sete vezes vens ao pelo. Eu te enxoto com este cobertor vermelho!”
Após o surgimento da luz eléctrica, revestia-se a lâmpada do quarto do doente com papel de celofane vermelho.
Para a dificuldade em urinar
Quando os homens, após a meia idade, tinham dificuldades em urinar, devido a problemas de patologia prostática, tinham o hábito de fazer chá de barbas de milho e tomá-lo todos os dias ao levantar e ao deitar. Geralmente, ao fim de algumas semanas, o problema está resolvido.
Para a tensão alta
Algumas pessoas queixam-se frequentemente de dores de cabeça e em certas ocasiões chega mesmo a soltar-se-lhes o sangue pelo nariz, sendo depois bastante difícil de estancar. Para este problema, era costume fazer-se um chá de folhas de oliveira para beber aos golos, todos os dias de manhã. Ao final de algumas semanas os resultados já estavam à vista: melhoravam as dores de cabeça e acabava o sangramento.
Para as dores de ouvidos
Para aliviar as dores de ouvidos, bastante frequentes nas crianças, esguichava-se leite de mulher para dentro dos ouvidos. Mas antes de deitar o leite, era conveniente que a mulher bebesse um copo de vinho do bom, pois assim o leite saía mais forte.
Para as feridas fundas
Quando se fazia uma ferida profunda com algum objecto cortante, era bom remédio cortar um pinheiro novo e aplicar a resina que dele brotava sobre a ferida, para estancar o sangue. Este tratamento não deixava ganhar pus e colava muito bem os bordos da ferida, sem que deixasse ficar marcas.
Para as queimaduras da pele
Quando alguém queimava a pele do corpo, para que não empolasse muito e aliviasse em simultâneo as dores, era costume pôr-lhe em cima, para ir derretendo, um bom bocado de enxúndia de galinha coberta com folhas de língua de vaca, planta que há por todo o lado. Este preparado devia ficar em contacto com a pele queimada, atando-se com um pano de linho muito bem lavado. Repetia-se o tratamento até que a pele sarasse.
Para a mulher não ter filhos
Quando as mulheres não queriam ter filhos, procuravam uma porção de milho mastigado ou mordido por uma mula e depois deitavam num frasco de vidro com um pouco de pêlo do mesmo animal, cortado da cauda junto ao corpo. Em seguida, juntava-lhe álcool, pó de maçãs de cipreste e flores de azevia vermelha. Depois de todos os elementos juntos, arrolhava-se bem o frasco e, quando a mulher estivesse resolvida a entrar no acto do coito, destapava o vidro, cheirava-o três vezes e dizia:
“- Ó mula amaldiçoada que, por teres querido matar o Divino Redentor na arribada de Belém quando ele nasceu, foste condenada a nunca dar fruto do teu ventre. Que tua saliva que está neste frasco me defenda de ser mãe.”
Para conseguir os grãos de milho abocanhados pela mula, untavam-lhe os dentes com sebo para que lhe escorregassem para a manjedoura.
Para curar a calvície
Para combater a calvície, as pessoas apanhavam cerca de dez moscas domésticas e colocavam-nas numa frigideira onde já estava um pouco de azeite de boa qualidade a ferver. Deixava-se que as moscas fervessem bastante com o azeite e, depois de ter passado tempo suficiente para que morressem pela fervura os micróbios que elas trazem consigo, tirava-se do fogo a frigideira. Deixava-se arrefecer e guardava-se aquele azeite com as moscas num frasco. Depois, era com este preparado que se untava a parte calva da cabeça todos os dias. Mas, antes de cada aplicação, era conveniente que se raspasse com navalha a parte já calva para dar força à penugem que ainda restava.
Para fazer dormir
As pessoas que não conseguiam dormir deviam tomar a semente das dormideiras, meimendro, alface e sumo de erva moura, ou leite de mulher que estivesse a criar filha, ou folhas de hera terrestre amassadas com a clara de um ovo. Com estes elementos fazia-se um emplastro na testa e com isso dormiam.
Para a dor de dentes e gengivas
Para combater a dor de dentes e gengivas, fazia-se um cozido de raízes de meimendro com vinagre e água rosada, colocando esse preparado na boca de quando em quando.
Para o mesmo efeito, assava-se uma cabeça de alhos no borralho, amassando-a depois. Em seguida, era posta em cima dos dentes ou das gengivas que doíam, o mais quente possível, advertindo que primeiro tinha de se colocar uma pequena porção da dita massa na orelha de cujo lado estivesse a dor.
Para a cólica
Para curar as cólicas era costume beber água de macela (camomila) ou cozimento de semente de linho, ou vinho, em que estivessem raízes de erva campana por dez ou doze horas.
Para o mesmo efeito, era também usado um emplastro de esterco de lobo.
Para a pedra nos rins
Para este problema era bom beber água de giesta, de grama ou de argentina na qual se tivessem misturado pós de cascas de ovos queimadas, ou de caroços de nêsperas.
Era ainda um bom remédio pôr em cima dos rins um emplastro de alfavaca de cobra, de raízes de cipreste ou folhas de erva campana cozidas com vinho. Mais eficaz ainda era tomar um banho onde se tivessem fervido folhas de malvas ou malvaisco, vides, flores de giestas e macela. Estando no banho, tinha de ter em cima dos ombros um saquinho de farelos.
Para quem urina na cama
Para quem, ao dormir, não conseguisse reter a urina, devia comer com frequência fígado de cabrito assado ou beber vinho com miolos de lebre ou bexiga de porco.
Para tirar o bicho que tenha entrado no corpo
Quando um bicho, ou cobra, entrava no corpo de alguma pessoa que estivesse a dormir, o melhor remédio era tomar sumo de solas de sapatos velhos pela boca e por um funil. O bicho saía pela parte de baixo.
